terça-feira, 23 de julho de 2013


O deus da tempestade ergueu-se de seu sono profundo lúcido e furioso. Através seu imenso desagrado, sua amargura, seu desgosto do mundo, cresciam uma fome e um ódio que estavam por despejar calamidades nas vidas dos homens, devastar os campos, queimar as florestas, esmagar e moer a face da Terra, lacerá-la. O ódio crescia de todos os cantos em que o deus pousava seus olhos -- preferia não ver, porque tudo o que via, odiava. Não resistindo a tamanha lascívia, já ia estendendo sua mão para alcançar seu cajado com que abriria frestas na terra e agitaria seus terremotos, já ia invocando à escuridão as nuvens com que causaria o dilúvio, afogaria os seres, salgaria o solo, já ia afinando sua voz para rugir o canto com que faria nascer o fogo e morrerem os picos das montanhas, já ia deixando sua ira fluir em si, para transbordar e derramar-se sobre tudo e todos, quando percebeu que sua mulher, ao seu lado, dormia ainda um sono tranqüilo, e preferiu deitar-se em silêncio, para que a não acordasse.

sábado, 20 de abril de 2013

Sexta à noite


Não há uma ditadura estourando lá fora
nem pessoas sendo fuziladas (mas hoje nevou de novo)
nem por isso eu me sinto menos apto a ficar angustiado
e eu não tenho com quem sair
e não posso beber
nem sozinho
e não posso fumar
nem me chamo José
nem tenho uma namorada
sim tenho uma namorada
mas ela não me tem amor
é fictícia
é psíquica
não é solteira
eu consertei o carregador do meu laptop com um clipe de papel
e essa foi minha vitória da noite
não foi pegar uma loura
não foi comer uma loura
não foi deixar de comer uma loura
foi consertar o carregador do meu laptop com um clipe de papel
porque eu não suportei que ele estivesse quebrado,
mas eu não fui consertar minha vida
eu fui me gabar do meu engenho
pra ninguém
porque esse meu engenho não conserta
minha solidão
esse meu não ter com quem falar
e ter que falar no Facebook.

domingo, 2 de setembro de 2012

Um conto sem propósito


A fazenda começava mesmo era depois do arroio, logo que passávamos pela antiga ponte de tijolos e as duas construções, um quarto pequeno em cada lado do que, antes da seca, era um riacho largo e arisco. Isso era na estrada velha, uns quinze anos atrás quando viajei com meus amigos no feriado para a fazenda do Elias; desta vez chegamos pela estrada nova, uma reta seca e geométrica que desconhecia o relevo, as plantas, e simplesmente cortava impaciente de uma ponta à outra o caminho que levava da estrada à sede. Era uma estrada de chão larga, para acomodar as pick-ups dos irmãos, e dela só se podia ver algumas partes do tortuoso caminho velho, os montes baixos e descampados (a menos de uma ou outra árvores abandonadas à espera da visita de uma vaca ou ovelha). A ponte, em particular, também se via.

Era um ponto de desentendimento aquela fronteira entre desdobramentos mais vastos da fazenda e seu âmbito "doméstico". Desde que dona Marciana falecera, não se sabia a quem competiriam aqueles dois quartos de tijolos abandonados, e a ponte: Elias pouco se importava, pois meses após a morte da mãe, mandou abrir a estrada nova -- queria demolir as pequenas edificações e aterrar o arroio, para facilitar o plantio; Anselmo alegava que aquelas duas casas eram a memória dos tempos em que serviam de abrigo da chuva para os antigos visitantes quando a parte mais baixa da estrada velha ficava intransitável. Mas chuva já não mais havia, nem tampouco os velhos visitantes.

Eu dissera ao Anselmo e ao Elias que só passaria a manhã e o início da tarde lá, porque o ônibus partiria às nove e doze. Foi bom ver a fazenda de novo, as esposas, as crianças, as namoradas e namorados. Foi bom até o caminho, ainda que Elias não tivesse me dado a opção de ir pela estrada velha -- estávamos já atrasados para o almoço. A tarde descontraída e de um calor ameno, foi se desenrolando em conversas, e cochilos, e tão mais o Elias se manifestava ainda indisposto a partir, mais eu ficava apreensivo. Eu não sabia dirigir, e francamente não havia maneira de ir-me por conta própria à rodoviária. A certa altura -- e só calmamente findado o lanche da tarde, com café e a broa que a meu ver demorou a ficar pronta -- partimos.

O Elias me deixou na cidade por volta das nove, mas quando cheguei à rodoviária o ônibus já partira, e tive de procurar um hotel para passar a noite.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

De mãos dadas com meu bem-querer


Tenho uma amiga que me ensinou um gosto puro, de querer se aproximar sem medo, de ter na presença a alegria e na ausência a tranqüilidade paciente. Um carinho, um gosto de ser sincero sem ser explosivo, de não ter mais fome do que pelo alimento que se põe à mesa. Tenho uma amiga que gostou de mim, e esse gosto foi rápido como um gole de água, tão suave quanto agradável, e depois não foi mais. Não há mais nada, senão um campo abandonado, cujos veios secos quedo-me a olhar e olhar, dia após dia.

É costume do homem, quando se depara, perplexo, com as transformações em seu entorno, tentar explicá-las. O homem ignorante, não havendo ciência alguma que o ajude a entender -- e portanto melhor aceitar as mudanças sem tomar parte em sua destruição --, pode apenas empregar sua imaginação na tarefa que única lhe resta como caminho de volta ao espaço devastado. Ele cegamente toma suas crenças como verdades e suas especulações como fatos. Mas a tormenta que o homem recria é mais cruel -- e mais pobre: é uma violência de poucos matizes, pequena como o coração do próprio homem --; o espaço a que retorna é um teatro de saudades onde a o tempo vai se desfiando numa morte tão lenta que se faz confundir com vida, e a brisa de antes não há, nem mais se deixa saber ter sido tão fresca.

Aquela brisa que me veio era, sim, tão agradável e boa.

Mas é minha mão invisível e canalha, uma tal parte desobediente de mim e leal a cantos mais negros do meu coração, que desarranja meus dons e me desconserta. Sobre a pele que pede uma carícia ela desfere um tapa, e quando se abre, não menos rígida que se cerrada em punho, tão somente of faz para percorrer, rigorosa, os campos, esmagando as folhas, e triturando as flores; render a destruição de uma grande mó, e trazer ao meu rosto o frescor da beleza esfacelada, como um troféu de guerra: a mão que se vangloria das tristezas que causa e das pessoas que afasta.

Pois afastou minha amiga, e não há mais nada neste campo abandonado, senão esse querer que só sabe ser uma saudade das mais tristes.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


Uma apreensão inquieta me vem como ondas e andando desatento na rua sinto o impulso de destruir meu entorno.

Tomar a criatura a princípio agitada, sentir nos nós das palmas das mãos a pressão desesperada e inútil dos ossos finos de suas asas, invadir-lhe a penugem empoeirada, fragilmente rígida, penetrando a maciez das plumas com a dureza de dedos que transpiram angústia, ignorar a humanidade de seus olhos assustados, a cabeça agitada, e então os arrolhos; aumentar a pressão e se prender nesta tarefa dedicada e aliviante de uma violência silenciosa até que a pomba amoleça, sem dar mais resposta -- então largar o pequeno e débil cadáver de lado, como se abandona um brinquedo usado pelo qual se perdeu o interesse.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Meu belo jardim


Meu belo jardim

No quintal lá de trás há um limoeiro de poucas folhas e de frutos mochos.

O terreno é pequeno e a cerca é de estacas mal-feitas; a erva daninha cresce nos canteiros e mais ao fundo já brotou o capim; formigas em carreira partem o solo e cortam as folhas das árvores; os bulbos dos lírios, soterrados, estão em coma. Não se pode cavar em todo lugar pois o solo é coalhado de pedras -- solo seco, esparso entre o moinho dos dedos. O vento quando vem é forte, as chuvas são frias, em dias quentes a sombra é pouca. À noite invadem os morcegos os ares sob as copas de árvores, as serpentes correm pela grama, os sapos úmidos brandem seus martelos -- e quem sabe que ratos ali não encontram seus restos...

No quintal lá de trás há dessas coisas e não vale a pena ir lá.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Rotina

I

(Concebida e criada a história,
a poesia, revelei-a
qual expusesse minha nudez
embriagado de otimismo;
suspenso na esperança.)

Estou decantando.

Por favor, diga logo que não me quer,
para que eu possa tocar minha vida.

II

A nudez que há em se deixar ler pelos outros. Deixar que lhe olhem as dobras da pele as partes que se cobrem não por decência mas por temor ao vexame; as remelas os pelos as caracas que lá estão por um esquecimento e serão os denunciantes inexoráveis de que se é porco. Os outros são humanos, eu imperfeito -- diferença que não está no que se é mas no que se perdoa.

Perdoe-me então, ao menos. (Tenha pena; agregue-me à humanidade -- o mundo que existe fora de você e que você vê todos dias, tudo a que você dirige o olhar que dirige apenas àquilo o que lhe é completamente alheio.) Perdoe-me o verso, as letras, o sentimento impróprio, o impulso irracional, a ação inoportuna.

Desculpe eu ser o querer correto na pessoa errada, desculpe o incômodo; não fiz por mal.